|
CREPÚSCULO MONTANHÊS
Oh, a ascenção divina da montanha!
O sol, tombando sobre o ocaso, banha
De oiro e lilás os amplos horizontes.
Têm aparências de alto-mar os montes;
E as nuvens vão pairando sobre a terra
Como formas fantásticas da serra:
Paisagem que no céu se desdobrou
E que a luz do sol-pôr iluminou
Da mesma cor de adeus e de saudade,
Neste triste morrer da claridade...
Os montes, os casais, os arvoredos,
A água do rio, os vultos dos penedos,
Desenhados na sombra da tardinha,
Sendo ainda da terra pobrezinha,
Parecem já viver uma outra vida...
Reluz num cêrro a alvura de uma ermida,
Velhinha, abandonada ao esquecimento,
Batida pela chuva e pelo vento...
Ergo em volta meus olhos abismados:
Esses vultos que eu via desenhados
Ainda há pouco nos longes denegridos,
Ei-los que estão de todo confundidos
Na sombra que os envolve... A própria serra
Lembra a noite poisada sobre a terra;
E nesse turvo sonho em que as confundo,
Eu nem sei se ainda vou calcando o mundo,
Ou se, pisando as nuvens, vou subindo
Pelas regiões etéreas, presentindo,
Além da escuridão que me seduz,
Outro sonho, outra vida, uma outra luz....
by Anrique Paço d'Arcos
More
works by this artist*
* If you are using Netscape Communicator for the Macintosh, please be aware of a bug that will
prevent the searching for more works by this artist to not work properly. Please use Internet Explorer 4.0 or later to
display the proper results.
|
[enlarge image]
|
|